1° ETAPA:
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01. A necessidade do amor
Ao tomar conhecimento de si mesmo como ser
capaz de consciência e liberdade, o homem percebeu sua diferença em relação ao
restante da natureza. Passou a sentir a solidão que acompanha a
individualidade. Ser um, tomar decisões e responder pela vida são fatos que
provocam um sentimento doloroso de abandono e desamparo, só superado na relação
com o outro. Veja como Erich Fromm descreve esse estado:
“O
homem é dotado de razão; é a vida consciente de si mesma; tem consciência de
si, de seus semelhantes, de seu passado e das possibilidades de seu futuro.
Essa consciência de si mesmo como entidade separada, a consciência de seu
próprio e curto período de vida, do fato de haver nascido sem ser por vontade
própria e de ter de morrer contra sua vontade, de ter de morrer antes daqueles
que ama, ou estes antes dele, a consciência de sua solidão e separação, de sua
impotência ante as forças da natureza e da sociedade, tudo isso faz de sua
existência apartada e desunida uma prisão insuportável. Ele ficaria louco se
não pudesse libertar-se de tal prisão e alcançar os homens, unir-se de uma
forma ou de outra com eles, como o mundo exterior”.
Dessa necessidade de união nasce o amor. O
amor é, pois, o meio procurado e desenvolvido pelo homem para vencer o
isolamento e escapar da loucura.
O amor é fundamental para o homem e para a
sociedade. Sem amor, o homem torna-se árido, incapaz de encantar-se com a vida
e de envolver-se com os outros. Não se sensibiliza com o abandono dos velhos, a
morte das crianças, a miséria do povo, a poluição e a destruição do planeta, o
roubo da cidadania, a morte dos ideais. Sem amor não há encontro, não há
diferença; resta a escuridão do individualismo, do ser incapaz de relação.
02. O amor
Não é
fácil explicar em poucas palavras as razões porque se aprecia o amor; no entanto vou tentar fazê-Io. Em
primeiro lugar, o amor deve ser apreciado — e esta razão, embora não seja a de
maior importância, é essencial a todo o resto — como sendo em si mesmo uma
fonte de prazer.
Oh! amor! muito te injuriam
Os que dizem que a tua doçura é fel,
Quando o teu rico fruto é tal
Que nada pode ser mais doce.
O autor
anónimo destas linhas não procurava uma solução para o ateísmo, nem uma chave para os enigmas do
universo; procurava apenas a sua satisfação íntima. E não somente o amor é uma
fonte de prazer, mas também a
sua ausência é origem de sofrimento. Em segundo lugar, o amor deve ser
apreciado porque dá realce aos melhores prazeres da vida, tais como o ouvir
música, o assistir ao nascer do sol nas montanhas, o ver a luz do luar
espelhada sobre as águas. Um homem que nunca gozou a contemplação das coisas
belas na companhia da mulher amada, nunca sentiu plenamente o poder mágico que
dessas coisas se desprende. Além do mais, o amor pode quebrar a dura concha do
Eu, pois é uma forma de cooperação biológica, na qual as emoções de cada um são
necessárias à satisfação dos propósitos instintivos do outro.
Têm
existido no mundo, em várias épocas, diferentes filosofias de solitários, umas
mais nobres do que outras. Os estóicos e os primitivos cristãos pensavam
que o homem podia realizar o supremo bem que a vida humana é capaz por meio da sua
própria vontade, sozinho, ou pelo menos sem outra ajuda humana; outros
encararam o poder como a finalidade da vida e para outros ainda essa finalidade
resumia-se aos prazeres pessoais. Todas estas filosofias são filosofias de
solitários na medida em que o bern se supõe ser realizável em cada pessoa
separadamente e não apenas numa sociedade maior ou menor de indivíduos. Em
minha opinião, tais ideias são falsas, não só consideradas como teoria de
moral, mas também como expressão do que há de melhor nos nossos instintos.
O homem
depende da cooperação e foi dotado pela natureza, um pouco imperfeitamente é certo,
com o aparelho de instintos que pode gerar a necessária tendência para essa
cooperação. O amor é a primeira forma e a mais comum da emoção que a ela conduz
e os que alguma vez sentiram o amor com intensidade não podem contentar-se com
uma filosofia que lhes diz que os seus mais altos interesses são independentes
dos da pessoa amada. A este respeito, o amor dos pais pelos filhos é certamente
o mais poderoso, mas esse sentimento será ainda maior se resultar do mútuo amor
dos pais. Não pretendo que o amor sob a sua forma mais elevada seja coisa
comum, mas afirmo que sob essa forma revela valores que sem ele ficariam
ignorados e mantenho que tem por si próprio uma importância que não é atingida
pelo cepticismo, embora
os cépticos, que são incapazes de o sentir, possam atribuir falsamente essa
incapacidade ao seu cepticismo.
(Bertrand RUSSELL - A conquista da felicidade. Lisboa: Guimarães Editores, [s.d.], p. 39-42)
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